top of page

Um dia dá certo

  • Foto do escritor: Ivan Sasha Viana Stemler
    Ivan Sasha Viana Stemler
  • 26 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Até lá é melhor ir dando errado mesmo...


Firme igual prego no angu.
Firme igual prego no angu.

O semestre tá acabando, as férias tão chegando, mas eu nem sei se isso é consolo ou ameaça.

Porque antes de descansar tem um monte de coisa pra entregar: reunião, relatório, nota, texto.

E quando o merecido “descanso” chegar, tem que entregar projeto paralelo em que eu me meti, fazer a vida doméstica continuar, cuidar de cinco filhos que precisam de um pai e manter casa funcionando por milagre e café.

(Muito café. Café pra caralho. Café pra acordar, café pra continuar, café pra fingir que tá tudo bem.)

E no meio disso tudo eu fico com essa sensação tosca de que tô sempre atrasado pra alguma coisa.

Sempre.

Aquela sensação de que tem um e-mail que eu deveria ter respondido, uma aula que deveria ter sido melhor, um capítulo que deveria estar escrito, um pai que deveria estar mais presente, um marido que deveria estar menos cansado, um designer que deveria ter duas cabeças e um pesquisador que deveria ter terminado a qualificação do mestrado lá em 2015 em vez de ter feito uma banda de rock.

Deveria, deveria, deveria — essa palavra deveria ser proibida. Deveria ser taxada. Deveria virar crime ambiental. (O animal aqui sofre com isso.)

Tem dias que eu me sinto só uma mochila cheia de tralha e boleto vencido sendo carregada por mim mesmo. E eu nem sou forte. Sou só teimoso.

E mesmo assim, por algum motivo imbecil, eu sigo achando que um dia dá certo.

Não porque eu vou virar alguém incrível. Nem porque a vida vai me premiar por esforço. Não porque o universo vai finalmente perceber que eu existo. Não porque eu vou virar alguém que acorda cedo, medita e resolve tudo antes das 10h.

Eu mal lembro de tomar água…

Mas porque, muito raramente, de vez em quando, sem querer e por pura sorte, as peças encaixam, nem que for por um segundo.

Um aluno entende algo bonito. (E depois esquece)

Um relatório não volta com muita revisão. (Mas amanhã tem outro pra fazer)

Uma página do mestrado fica boa. (Mas fica fora do escopo do referencial teórico)

Uma criança dorme no meu colo. (E depois acorda, mas pelo menos dormiu)

A casa fica silenciosa por dez minutos. (Só dez minutos, sério)

A vida dá uma piscadinha de “vai, continua”. (Você não tem opção mesmo, hahaha)

E eu fico aqui, pensando que, se encaixou por um segundo, basta segurar mais um pouco pra encaixar pra sempre. (kkkkkkkkkkkkkkkkkk… Quando eu falo alto assim, eu me surpreendo com a minha própria ingenuidade.)

Não sei se hoje dá certo. Provavelmente não. Mas eu tô aqui. Cansado, mas aqui.

E às vezes é só isso que dá pra oferecer ao mundo. Eu não sei se é suficiente, mas é o que temos. De verdade, tem dias em que eu queria desaparecer por umas 48 horas. Não morrer, não sumir pra sempre — só desligar.

Encostar numa parede e deixar o corpo existir sozinho por um tempo, colocar o cérebro em modo avião.

Mas aí lembro que não dá: tem cinco crianças que acham que eu sei o que estou fazendo, uma esposa que confia mais em mim do que eu confio em mim mesmo, um mestrado que insiste que eu posso pensar alguma coisa útil, e um trabalho que, apesar de tudo, às vezes, bem às vezes, até faz sentido.

E no fim das contas, talvez seja isso que mantém a máquina andando:

não esperança — isso eu larguei faz tempo — mas essa responsabilidade misturada com amor, misturada com culpa, misturada com teimosia, misturada com a sensação irritante de que parar não resolve nada, mas seguir também não resolve muito.

E ainda assim eu vou, porque tem gente que depende de mim, e porque aparentemente eu funciono assim: andando, mesmo quando não faz sentido.

Não por fé no futuro. Só por inércia, hábito, e essa mania besta de continuar respirando.

Se um dia der certo, ótimo. Se não der, tudo bem também. A vida nunca me prometeu grandes enredos.

Mas eu, eu mesmo, prometi uma coisa a mim mesmo — lá atrás, quando quebrei de um jeito feio e passei três meses num lugar onde o tempo parece uma sala vazia — que eu não ia largar o caminho no meio de novo.

Só isso.

Porque tem buracos que eu não quero revisitar. Porque eu já sei o que acontece quando eu paro.

 
 
 

Comentários


bottom of page